A indústria brasileira iniciou o ano de 2022 em queda. A produção industrial recuou 2,4%, ante alta de 2,9% em dezembro de 2021, informou o IBGE. Com o resultado, a indústria se encontra agora mais distante do patamar pré-pandemia, estando 3,5% abaixo do nível de fevereiro de 2020.
É a maior baixa para o mês desde 2018, quando em janeiro daquele ano caiu 2,6%. O desempenho do setor veio pior que o esperado. Analistas ouvidos pela Reuters esperavam queda de 1,9% para a indústria no mês.
A indústria vem sofrendo, desde o início da pandemia, com a desorganização das cadeias produtivas, que levou à falta de componentes e ao encarecimento das matérias-primas usadas pelas fábricas.
Além dos problemas do lado da oferta, a demanda por produtos industriais tem sido freada pelo desemprego ainda elevado e queda do rendimento dos trabalhadores. Isso é agravado pelo aumento da inflação, que corrói a renda das famílias e impacta o consumo.
O gerente da pesquisa, André Macedo, explica que, além dos fatores supracitados que tem afetado a produção, o crescimento visto em dezembro foi atípico e pode estar relacionado com um movimento de antecipação da produção pelo fato de o mês de janeiro abarcar férias coletivas e paralisações.
Dessa forma, o ano se inicia “muito próximo” ao comportamento negativo que predominou sobre a indústria ao longo do ano passado, diz ele:
— Além de todos os fatores conjunturais que a gente vem elencando há algum tempo, o janeiro de 2022 fica muito marcado por essa maior presença de férias coletivas, base de comparação mais alta… O maior avanço da Ômicron também impactam os resultados, e alguns fatores pontuais que atuam sobre o resultado como as chuvas intensas em Minas Gerais que alcançam de forma importante o setor extrativo, especificamente a extração do minério de ferro.
Maioria das atividades em queda
Todas as quatro grandes categorias investigadas apresentaram queda. Quando se analisam as 26 atividades industriais pesquisadas, 20 apontaram recuo na produção em janeiro.
Entre os destaques dos segmentos que apresentaram resultados negativos está o setor de veículos automotores, com queda de 17,4% em janeiro. A atividade tem grande peso para o setor de bens de consumos duráveis, que caiu 11,5% e registrou a queda mais intensa desde abril de 2020, auge da pandemia.
— Observamos frequência maior de reduções de jornada de trabalho e férias coletivas, além daquele movimento de desarticulação das cadeias produtivas na medida em que alguns momentos faltam componentes. A produção de eletrodomésticos da linha marrom e branca, eletroportáteis e motocicletas também recuou, e [assim como automóveis] tem seu movimento atrelado ao crédito, que no momento de elevação influencia negativamente o comportamento dessa atividade industrial — diz Macedo.
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A queda de 5,2% da indústria extrativa também impactou o desempenho da categoria de bens intermediários, que caiu 1,9% em janeiro. Segundo o IBGE, boa parte do recuo tem relação com a produção de minério de ferro, cuja extração foi afetada pelas chuvas intensas em Minas Gerais no início do ano.
Por outro lado, o avanço da produção no setor de derivados de petróleo contribuiu para uma queda menos intensa nessa categoria.
Única categoria cujo desempenho segue acima do nível pré-pandemia, bens de capital caiu 5,6% em janeiro. A produção do setor, usado para produzir outros bens, vem sendo beneficiado por segmentos como o da agropecuária, mas apresentou redução na fabricação de caminhões no mês.
Bens de consumo semi e não duráveis recuaram 0,5%. Influenciaram a queda o setor segmentos como o farmacêutico, têxtil e calçadista.
Na outra ponta, atenuaram as quedas o segmento de produção de combustíveis que abastecem as famílias e o setor de alimentos – com destaque para as carnes bovinas, que teve produção intensificada, acompanhada da regularização das exportações para a China e um aumento das exportações para o mercado americano.
Guerra pode afetar setor industrial
Pouco antes do cenário de guerra por conta da invasão russa à Ucrânia, empresários do setor já estavam mais pessimistas quanto ao desempenho da indústria neste início de ano. O Índice de Confiança da Indústria (ICI) do FGV IBRE, que coletou informações de 1.022 empresas em fevereiro, recuou pelo sétimo mês consecutivo.
O indicador caiu 1,7 ponto em fevereiro, chegando a 96,7 pontos, menor nível desde julho de 2020 (quando ficou em 89,8 pontos). “A indústria enfrenta desaceleração da demanda acompanhada ainda de persistência dos gargalos produtivos que pressionam os custos” disse Claudia Perdigão, economista do FGV IBRE, durante a divulgação.
Com a disparada dos preços das commodities no mercado internacional, analistas avaliam que a alta dos preços e as sanções impostas à Rússia podem impactar ainda mais os custos de produção.
— Para além do campo da incerteza [que afeta a decisão sobre investimentos], esse conflito geopolítico pode trazer ainda mais consequências sobre as cadeias produtivas globais e afetar a produção doméstica. Mas como isso vai impactar, de que forma e em que magnitude isso vai afetar a gente precisa esperar — conclui André Macedo.
No cenário externo, o ataque da Rússia à Ucrânia já agrava o problema de abastecimento dos semicondutores.Empresas como Ford e Michelin suspenderam suas produções nos Estados Unidos e Europa por conta de dificuldades com logística e produtos importados destes países.
Felipe Sichel, estrategista-chefe do banco digital Modalmais, avalia que o setor industrial não só mostrou dificuldades em janeiro, como seu desempenho é preocupante para os próximos meses, mesmo com a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) – decretada pelo governo e que reduz de forma linear em 25% as alíquotas que incidem sobre produtos da indústria nacional.
“As cadeias de produção ainda não foram totalmente restabelecidas, o ciclo de alta da Selic deve ser prorrogado e o conflito geopolítico na Ucrânia adiciona ainda mais incerteza quanto ao transporte, preço e suprimento de insumos. Para o ano, projetamos avanço de 0,5% no PIB”, comentou.
Rodolfo Margato, economista da XP, não espera recuperação consistente da indústria nos próximos meses.
“A escalada do conflito militar na Ucrânia adiciona pressão sobre custos de produção, piora condições financeiras e deve postergar a normalização das cadeias de suprimentos globais. Ademais, a demanda doméstica tende a encolher ao longo de 2022, refletindo sobretudo o aperto das condições monetárias”, disse Margato, que prevê “tímida elevação” de 0,5% para a produção industrial este ano.


