Aproximadamente 5.280 indústrias e grandes empreendimentos cearenses passaram a arcar com um aumento de 9,61% na tarifa de energia elétrica desde a última quinta-feira (23). O reajuste, aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para clientes de alta tensão da Enel Ceará, promete pressionar o comércio local e gerar reflexos no bolso do consumidor final.
A alta de quase 10% nos custos energéticos atinge 0,12% dos clientes da distribuidora ligados à média e alta tensão. Já para os consumidores residenciais, o reajuste médio aprovado em 2026 foi de 4,61%.
Impacto duplo sobre o comércio cearense
Para a diretora institucional da Fecomércio Ceará, Cláudia Brilhante, o reajuste impõe um impacto duplo ao comércio cearense. Segundo ela, o cenário se agrava pelo efeito em cadeia sobre a inflação, “uma vez que a energia elétrica distribuída pela Enel é componente relevante na formação de preços de vários produtos e serviços, o que tende a gerar aumentos sucessivos ao longo da cadeia produtiva”.
Já o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec), Amílcar Silveira, manifestou profundo descontentamento com a medida. Segundo ele, o setor produtivo enfrenta um momento crítico, marcado por excesso de oferta energética e reajustes que superam significativamente os índices inflacionários.
“Na nossa avaliação, é um equívoco. Esse aumento, principalmente da alta tensão, que é de 10%, não tem nenhuma inflação que chegue perto disso”, reforçou Silveira.
Pressão inflacionária inevitável
O presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Wandemberg Almeida, alerta que a energia é um insumo essencial e insubstituível no curto prazo. “Isso vai trazer um certo desconforto porque vai fazer uma compressão de margem de lucro para as empresas”, avalia.
Almeida destaca que o custo operacional elevado acaba sendo repassado ao preço final de produtos e serviços básicos, atingindo o consumidor de forma duplicada. “Quanto menor a concorrência e mais essencial for o produto, maior vai ser o repasse para o consumidor final”, complementa o economista.
O que explica o reajuste
Segundo a Aneel e a Enel Ceará, os principais fatores que pressionaram a tarifa foram os encargos setoriais, que registraram alta de 17,8% e financiam políticas públicas e subsídios, além dos custos de aquisição de energia, influenciados por um regime hidrológico menos favorável do que o verificado no ano anterior.
O fim de descontos temporários e diferimentos aplicados em 2025 também contribuiu para o aumento, gerando um efeito de recomposição tarifária. Um dado relevante é que a parcela da tarifa destinada à operação e manutenção da rede pela Enel (Parcela B) teve, na verdade, uma redução de 1,24%.
Isso significa que o aumento percebido pelo setor produtivo é composto quase inteiramente por custos repassados a geradoras, transmissoras e encargos definidos em lei. Especialistas alertam que esse reajuste gera uma “inflação de custos”, comprometendo diretamente a competitividade das empresas cearenses no cenário nacional.
Mercado livre ameniza o impacto, mas também enfrenta pressão
Por outro lado, o impacto do reajuste pode ser mitigado para uma parcela significativa de consumidores com contas a partir de R$ 20 mil mensais, que já compram energia diretamente no Mercado Livre. Atualmente, a Enel Ceará possui mais de 4 milhões de unidades consumidoras.
Segundo Bernardo Viana, diretor de regulação do Sindienergia, o reajuste da distribuidora impacta esses clientes apenas na Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição (TUSD). “Quem está no Mercado Livre é impactado minimamente com o custo do fio da rede”, esclarece.
Porém, o próprio Mercado Livre de Energia também registra forte pressão. Um estudo da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel) revela que, entre 2024 e 2026, os preços para contratações de longo prazo subiram 59%, enquanto as compras trimestrais dispararam 121%.
De acordo com Rodrigo Ferreira, presidente da Abraceel, esse cenário de escassez e preços elevados pode expor consumidores a custos “impagáveis”, afetando diretamente a competitividade industrial e a inflação. Na prática, mesmo a indústria que não compra energia diretamente da Enel enfrenta um mercado de geração com preços em trajetória ascendente.
