A indústria do cimento no Brasil enfrenta um dilema que vai além das metas ambientais. Aproximadamente 80% do coque de petróleo consumido nos fornos do setor vem de fora do país, o que coloca as fábricas à mercê de choques geopolíticos, oscilações cambiais e interrupções logísticas internacionais. Cada crise no Oriente Médio ou tensão comercial entre potências globais repercute diretamente na planilha de custos das cimenteiras nacionais, comprimindo margens em um mercado já altamente disputado.
Resíduos que substituem combustíveis fósseis
Diante dessa vulnerabilidade, o coprocessamento emergiu como um dos mecanismos mais concretos de transformação. A técnica permite que biomassa, pneus inservíveis, resíduos urbanos e subprodutos industriais substituam parte do combustível fóssil nos fornos rotativos. O país já atingiu uma taxa de substituição térmica próxima de 30%, o que evita a emissão de cerca de 2,8 milhões de toneladas de CO₂ anuais — volume equivalente ao que seria gerado por uma frota de mais de 600 mil caminhões pesados rodando durante um ano.
Os investimentos previstos até 2030, estimados em R$ 3,5 bilhões, devem ampliar ainda mais esse patamar. Além do ganho ambiental, a diversificação da matriz energética reduz a dependência de importações e confere maior previsibilidade aos custos de produção — fator decisivo para viabilizar obras de infraestrutura de longo prazo.
O desafio químico que a tecnologia sozinha não resolve
Existe, contudo, uma barreira que nenhuma troca de combustível é capaz de eliminar completamente. Parte significativa das emissões de CO₂ na fabricação de cimento decorre da calcinação do calcário — uma reação química inerente ao processo produtivo. Tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCUS) existem, porém ainda apresentam custos elevados e demandam infraestrutura complexa, pouco compatível com a realidade de muitas plantas industriais brasileiras.
É nesse contexto que as chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SbN) ganham relevância estratégica. Projetos de restauração florestal, conservação de biomas e manejo sustentável do solo permitem compensar as emissões residuais — aquelas que a eficiência energética e a redução de clínquer ainda não conseguem zerar. O Brasil, com sua extensão territorial e diversidade de ecossistemas, reúne condições excepcionais para implementar essas iniciativas em larga escala.
Um modelo que combina fábrica e floresta
Segundo Paulo Camillo Penna, presidente do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (Snic) e da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), integrar a agenda industrial à conservação ambiental é o caminho mais pragmático para a descarbonização no curto e médio prazo. “Ignorar esse potencial seria desperdiçar uma das principais vantagens competitivas reais do país na economia de baixo carbono”, afirma.
O arcabouço regulatório brasileiro avançou em 2025 com o Plano Clima e, em 2026, com a construção do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. Ainda assim, falta definir com precisão como as SbN serão incorporadas a esse novo modelo. Sem essa clareza normativa, projetos que poderiam atrair investimentos internacionais e gerar créditos de carbono verificáveis ficam em compasso de espera.
Na avaliação de Penna, apostar exclusivamente em soluções tecnológicas caras e ainda pouco maduras pode ser contraproducente. “Ao integrar indústria, economia circular e ativos naturais, o Brasil tem a oportunidade de construir um modelo de transição mais competitivo, resiliente e alinhado às suas próprias vocações”, conclui.
