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Economia circular na construção civil avança com certificação e enfrenta desafios estruturais

Selo AQUA-HQE® da Fundação Vanzolini impulsiona práticas sustentáveis, mas fragmentação da cadeia e logística reversa ainda limitam o reaproveitamento de materiais

Na arquitetura e na construção civil, o fim de um ciclo pode representar, também, o início de outro. Essa lógica tem orientado uma transformação importante no setor: a adoção da economia circular como resposta à necessidade urgente de reduzir o impacto ambiental das obras e edificações.

De forma simplificada, a economia circular propõe substituir o modelo tradicional de “extrair, usar e descartar” por um sistema contínuo de reaproveitamento. Nessa abordagem, produtos e edificações são concebidos desde o início para durar mais, além de facilitar o conserto, a reutilização e a reciclagem de seus componentes.

A mudança de paradigma passa pela escolha criteriosa de materiais e técnicas construtivas. A reutilização inteligente, a redução de resíduos e o uso de matérias-primas rastreáveis deixam de ser diferenciais e passam a ocupar papel central nos projetos contemporâneos. Ao integrar sustentabilidade e elegância, a arquitetura reforça a ideia de que a sofisticação está em habitar o mundo sem esgotá-lo.

Certificação AQUA-HQE® como ferramenta prática

Nesse contexto, a certificação AQUA-HQE®, da Fundação Vanzolini (FCAV), tem se consolidado como instrumento relevante para transformar a economia circular em prática concreta no setor da construção.

Segundo a equipe técnica da FCAV, o selo introduz conceitos como “potencial de desmontabilidade” e “preparação para o fim da vida útil do imóvel”. Na prática, isso significa que um projeto certificado já nasce com um plano de desconstrução, permitindo que seus sistemas sejam reaproveitados em vez de descartados em aterros.

A certificação também exige rigor técnico na gestão de resíduos ao longo da obra, incluindo triagem na origem, separação por tipologia, organização do armazenamento, redução das quantidades geradas e rastreabilidade da destinação. Mais do que garantir o descarte adequado, o processo AQUA-HQE® incorpora a redução na fonte, a preparação para valorização e a reciclagem. “Todo esse processo evita desperdícios e ajuda a estruturar fluxos de reaproveitamento”, explica a equipe técnica da FCAV.

Do canteiro de obras ao uso da moradia

Nos canteiros de obras de baixo impacto ambiental, a gestão de resíduos deixa de ser uma etapa passiva limitada à destinação final e assume um papel ativo. A triagem na origem e a rastreabilidade total transformam o que antes seria descartado em insumos para novos ciclos produtivos.

Essa lógica se estende à fase de uso do edifício. O selo AQUA-HQE® prevê espaços adequados para triagem e fluxos internos que facilitem a coleta seletiva, tornando a reciclagem uma prática intuitiva no cotidiano dos usuários.

Mais do que isso, o referencial propõe uma mudança de visão: o edifício deixa de ser entendido como um bloco estático e passa a ser visto como um banco temporário de materiais. Ao priorizar manutenção e reparabilidade, a certificação prolonga o ciclo de vida das construções e reforça uma arquitetura alinhada aos limites ambientais, sem abrir mão da eficiência técnica.

Desafios à circularidade persistem

Apesar dos avanços, a implementação da economia circular no setor ainda enfrenta obstáculos relevantes. Um dos principais está na própria estrutura da cadeia produtiva. O ciclo de vida dos ativos imobiliários é longo e envolve diversos agentes — projetistas, construtoras, incorporadoras, fornecedores e usuários finais — que nem sempre compartilham os mesmos incentivos econômicos.

De acordo com a professora Marly Monteiro de Carvalho, do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP, a fragmentação da cadeia de suprimentos é o principal entrave. “Esse desalinhamento dificulta a internalização dos benefícios de longo prazo associados à circularidade, como redução de resíduos e valorização de materiais ao final da vida útil”, afirma.

A dificuldade de estruturar modelos financeiros capazes de capturar benefícios ambientais e sociais — e não apenas o valor econômico direto — também representa um desafio significativo. A ausência de incentivos fiscais consistentes e de mecanismos adequados de precificação do descarte de resíduos agrava o cenário.

Além disso, o uso de materiais reaproveitados ainda enfrenta resistência. “Produtos reaproveitados frequentemente enfrentam barreiras de certificação técnica, comprometendo a confiança de engenheiros e investidores quanto à durabilidade, desempenho estrutural e responsabilidade técnica das edificações”, explica a professora.

A logística reversa também configura um entrave expressivo. O transporte de resíduos da construção, geralmente pesados e volumosos, pode ser mais caro do que a aquisição de matéria-prima virgem, especialmente na ausência de infraestrutura local de processamento.

Modularidade como caminho promissor

Entre as soluções mais promissoras está a industrialização da construção aliada à modularidade. Sistemas construtivos baseados em componentes padronizados, produzidos em escala industrial, reduzem o desperdício típico dos canteiros tradicionais e facilitam tanto a montagem quanto a desmontagem das edificações.

“Ao diminuir perdas de materiais, retrabalhos e tempo de execução, esses sistemas reduzem diretamente os custos de construção e tornam os empreendimentos habitacionais mais acessíveis”, afirma Carvalho.

Além disso, a modularidade viabiliza estratégias como o design para desmontagem, permitindo que componentes sejam reutilizados ou reconfigurados ao longo do tempo — um passo essencial para consolidar a economia circular na construção civil brasileira.

Fonte: Redação
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