Uma tonelada de vidro pode render à cooperativa entre R$ 20 e R$ 50. Destinar o mesmo material custa mais de R$ 120. Foi dessa conta que nasceu, no litoral Norte do Ceará, uma pesquisa que transforma garrafas descartadas em revestimento para a construção civil. O trabalho do campus de Camocim do Instituto Federal do Ceará (IFCE) já resultou em um pedido de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Quem desenvolveu a tecnologia
O revestimento foi criado pela professora Izabela Cristiane de Lima Silva, do curso de Tecnologia em Gestão Ambiental, em parceria com o estudante Carlos Eduardo dos Santos da Costa e com a Cooperativa de Reciclagem do Baixo Acaraú (Coopbravo). O produto usa vidro triturado em diferentes granulometrias e cores e permite criar texturas parecidas com as de acabamentos como granilite, granatto e grafiato.
O problema que motivou o projeto
Embora seja reciclável, o vidro enfrenta barreiras: o peso, o custo do frete e o baixo valor de venda dificultam seu retorno à cadeia produtiva, sobretudo longe dos grandes polos industriais. No litoral Norte, a geração do resíduo está ligada, entre outros fatores, ao turismo e ao consumo de bebidas em garrafa. A Coopbravo levou ao IFCE a necessidade de agregar valor ao material que já coletava.
Da granalha ao acabamento
A cooperativa já tinha uma máquina trituradora, obtida por parceria entre o Instituto Camboa e a Ambev, que transformava garrafas em granalha, usada em tijolos ecológicos e filtros de piscina. A equipe de pesquisa passou a buscar novos usos e escolheu a construção civil, inspirada em revestimentos feitos de materiais minerais triturados.
Os primeiros testes foram artesanais, com a participação de Carlos Eduardo e do pintor Fabiano Dourado na aplicação. Na fórmula, o vidro é o elemento principal e conserva o brilho natural, sem pigmento artificial, aproveitando as cores e os tamanhos dos grãos para compor o acabamento.
Mais valor para quem recicla
O pedido de patente cobre também as etapas do processo: coleta, separação por cor, trituração, armazenamento e aplicação. A ideia, segundo o IFCE, é que cooperativas e associações de catadores possam vender produtos de maior valor, e não apenas fornecer resíduo.
A Coopbravo, fundada em 2021, tem 18 cooperados e realiza ações de coleta seletiva e educação ambiental que alcançam mais de 12 mil pessoas na região. Antes da parceria, a venda de outros recicláveis, como o alumínio, ajudava a cobrir os custos do vidro.
Benefícios apontados
A equipe cita possíveis ganhos ambientais: menos descarte inadequado, menor transporte do resíduo para outros estados e, conforme a aplicação, a substituição parcial ou total de agregados naturais. Transformar cacos em granalha também reduz o risco de cortes para quem manuseia, armazena e transporta o material. Esses efeitos dependem da aplicação e de modelos de produção ainda em estudo.
Pesquisa que virou TCC
Carlos Eduardo, de 21 anos, acompanhou o pedido de patente e levou o tema ao Trabalho de Conclusão de Curso em Gestão Ambiental. O estudo propõe um modelo regional de gestão do vidro para Camocim, Barroquinha, Chaval, Granja, Martinópole e Jijoca de Jericoacoara. Os primeiros resultados foram apresentados no Congresso Nacional de Gestão Ambiental, em Recife, em 2025.
Próximos passos
O grupo pretende estudar a produção e a comercialização dos revestimentos e avaliar novos usos do vidro reciclado, inclusive no artesanato, além de promover capacitação, assistência técnica e busca de recursos. Segundo o IFCE, grupos de outras regiões já procuraram a instituição, e a proposta é avaliar como a tecnologia pode ser adaptada por outras cooperativas.


