As vendas de máquinas agrícolas no Brasil tendem a permanecer estáveis em 2026, sem sinais claros de retomada mais forte. A avaliação é do presidente executivo da Anfavea, Igot Calvet, que classifica o próximo ano como desafiador para o setor. Segundo ele, o cenário atual não apresenta variáveis capazes de impulsionar um crescimento relevante das comercializações.
De acordo com Calvet, os custos de produção no campo aumentaram e, mesmo com a expectativa de uma boa safra em 2026, muitos produtores rurais têm optado por adiar investimentos em novos equipamentos. A decisão está relacionada à redução da rentabilidade, pressionada principalmente pela queda nos preços das commodities agrícolas.
O ambiente de juros elevados também pesa sobre o mercado. A expectativa é de que o Banco Central inicie um primeiro ciclo de corte da taxa básica até março, mas os efeitos práticos sobre o crédito e o consumo de máquinas devem demorar a se materializar. “O mercado precisa de seis a sete meses para começar a sentir os impactos da redução dos juros, sem contar as instabilidades que podem surgir em função do período eleitoral”, avalia o executivo.
Outro fator que preocupa as fabricantes nacionais é o avanço das máquinas importadas da Ásia. Esses equipamentos vêm conquistando espaço, sobretudo em licitações públicas, impulsionados por preços mais baixos e condições de financiamento competitivas. No entanto, Calvet ressalta que o custo total tende a ser maior no longo prazo, devido à fragilidade da estrutura de pós-venda. Em alguns casos, a falta de peças simples compromete a operação, com máquinas permanecendo paradas por meses à espera de componentes básicos.
Desempenho recente do setor
No acumulado de janeiro a outubro, as vendas no varejo de tratores e colheitadeiras somaram 43,1 mil unidades, registrando leve retração de 0,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. Além da queda nos volumes, outro indicador reforça a cautela dos produtores: a disponibilidade de recursos do programa Moderfrota em dezembro, algo que não vinha ocorrendo nos últimos anos, quando os valores costumavam se esgotar antes do fim do exercício.
No atacado, que corresponde às vendas das fábricas para a rede de concessionárias, foram comercializadas 47,6 mil máquinas no período, um crescimento de 18,4% na comparação anual. Segundo a Anfavea, esse avanço percentual reflete uma base fraca em 2024. Além disso, a rede opera atualmente com estoques elevados, concentrados principalmente em tratores de baixa potência, que apresentam margens de rentabilidade menores.
As exportações de máquinas agrícolas avançaram 0,4% entre janeiro e outubro, totalizando 5,2 mil unidades embarcadas. Para 2026, a expectativa é de um desempenho semelhante ao de 2025, embora exista potencial de crescimento em mercados da América Latina e da África, onde a abertura de novos destinos pode criar oportunidades adicionais para a indústria brasileira.
