A retração de 0,2% no Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), reforça o cenário de perda de fôlego da economia brasileira. O resultado contrariou as expectativas do mercado, que projetavam crescimento de 0,10%, e adiciona novos elementos à análise do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre o início do ciclo de cortes da taxa Selic, atualmente esperado para o primeiro trimestre de 2026.
Este foi o segundo resultado negativo consecutivo do indicador. Em setembro, o IBC-Br já havia recuado 0,19%, dado revisado pelo Banco Central em relação à queda de 0,20% divulgada anteriormente. A sequência de números no campo negativo sinaliza uma desaceleração mais consistente da atividade no segundo semestre.
Para Rodolfo Margato, economista da XP, o desempenho recente está alinhado ao ambiente de política monetária restritiva. “A atividade doméstica vem desacelerando ao longo do segundo semestre, o que é compatível com o nível atual de juros”, afirma. Ainda assim, ele pondera que o mercado de trabalho segue relativamente robusto, apesar dos primeiros sinais de estabilização do emprego, e que medidas fiscais expansionistas ajudam a sustentar um cenário de resiliência da atividade nos próximos meses.
Na avaliação de Matheus Pizzani, economista do PicPay, o dado deve ganhar peso nas discussões sobre os rumos da política monetária. “O resultado vai justamente na direção oposta de um dos pilares do último comunicado do Copom, que avaliava o ritmo de crescimento como ainda positivo”, observa.
Já para André Valério, economista do Inter, o cenário indica que a desaceleração econômica já está consolidada. “Apesar disso, o movimento ainda não é intenso o suficiente para caracterizar uma recessão no horizonte”, ressalta. Leonardo Costa, economista do ASA, compartilha leitura semelhante e afirma que “o IBC-Br aponta para uma queda moderada da atividade na margem, reforçando a perda de tração no início do quarto trimestre”.
Desempenho setorial desigual
Embora o resultado agregado tenha sido negativo, analistas destacam diferenças relevantes entre os setores. Valério chama atenção para o fato de o dado destoar de algumas estatísticas setoriais divulgadas pelo IBGE, que apontaram crescimento nos três principais segmentos da economia.
Ao analisar a abertura do indicador, Leonardo Costa destaca que a retração foi disseminada, com impacto mais forte na indústria, que recuou 0,7%, e nos serviços, com queda de 0,2%. Na contramão, a agropecuária avançou 3,1% na margem, o que ajudou a suavizar o resultado geral. Sem o desempenho positivo do setor agropecuário, o recuo do IBC-Br teria sido ainda maior, de 0,3% no mês.
A divergência entre o IBC-Br negativo e dados setoriais positivos, como os da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), também foi destacada por António Ricciardi, economista do Daycoval. Segundo ele, a explicação está na metodologia utilizada. “Os pesos do PIB são diferentes dos pesos da PMS, especialmente no segmento de transportes, o que gera esse tipo de descolamento”, explica.
Ricciardi ressalta que, independentemente das diferenças metodológicas, a tendência é clara. “Os setores menos sensíveis ao ciclo econômico, especialmente a agropecuária, continuam mostrando maior dinamismo, enquanto os setores mais cíclicos, como indústria e serviços, apresentam desaceleração mais intensa”, afirma. Para ele, o movimento confirma que a política monetária restritiva está afetando justamente os segmentos mais dependentes do crédito.
Nos segmentos industriais, intensivos em capital, os resultados seguem fracos em diversos grupos, agravados, em alguns casos, pelo impacto do aumento de tarifas, destaca Valério. Paralelamente, observa-se uma desaceleração contínua nas vendas de alimentos, tanto no varejo quanto no setor de restaurantes.
Projeções para o PIB
Diante desse cenário, o ASA mantém a projeção de crescimento próximo de zero para o PIB no quarto trimestre de 2025, em linha com a desaceleração gradual da atividade doméstica observada ao longo do segundo semestre.
No Inter, a combinação entre perda de tração da economia e processo de desinflação reforça a expectativa de início dos cortes da Selic já no primeiro trimestre de 2026, possivelmente na reunião de janeiro. “Esperamos que a acomodação do crescimento continue ao longo do quarto trimestre, com o PIB praticamente estável no período e encerrando o ano com alta de 2,2%”, afirma Valério.
A XP, por sua vez, projeta crescimento de 0,2% do PIB no quarto trimestre de 2025 e expansão de 2,3% no acumulado do ano.


