O cenário econômico de 2026 desenha uma nova dinâmica para o mercado financeiro e imobiliário brasileiro. Com a Taxa Selic atualmente em 15%, as principais instituições já precificam a inversão da política monetária, focando suas estratégias no iminente ciclo de cortes. A expectativa é que a redução dos juros não apenas destrave valor em ativos de risco, mas também impulsione um ano marcado por engenharia financeira sofisticada e expansão recorde na concessão de crédito.
Expansão do crédito e acesso à moradia
A Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) projeta um crescimento de 16% no setor para este ano. A estimativa é que o volume de imóveis financiados salte de 1,3 milhão, registrado em 2025, para cerca de 1,45 milhão de unidades em 2026.
Priscilla Ciolli, presidente da entidade, avalia que a queda dos juros básicos alivia o comprometimento de renda das famílias, permitindo que mais consumidores se enquadrem nos critérios de aprovação bancária. Essa visão é corroborada pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc). Luiz França, presidente da associação, calcula que um corte de apenas 0,25 ponto percentual na Selic tem o potencial de incluir 215 mil novas famílias no mercado de crédito.
Para a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o movimento funciona como um gatilho de confiança. Fernando Guedes Ferreira Filho, presidente executivo da câmara, aponta que existe uma demanda represada, especialmente no médio padrão, que deve ser liberada à medida que o comprador perceba estabilidade no cenário econômico.
Estratégias de investimento: Tijolo ou Papel?
Diante da mudança de ventos, grandes bancos ajustam suas recomendações de alocação.
- Santander: Aposta na valorização dos fundos de “tijolo” (imóveis físicos), recomendando uma exposição de 60% na carteira. Flávio Pires, analista do banco, destaca os segmentos de galpões logísticos e shopping centers como os mais promissores, além de notar uma recuperação na ocupação de escritórios em São Paulo.
- XP: Marx Gonçalves sugere uma divisão por perfil. Investidores conservadores devem focar em renda recorrente via FIIs, enquanto os moderados e arrojados podem buscar multiplicação de capital através de ações de incorporadoras.
- Itaú BBA: Mantém cautela, lembrando que a taxa terminal de juros deve permanecer acima de 12% em 2026. Por isso, fundos de “papel” (dívida atrelada ao CDI) seguem essenciais para quem busca dividendos.
Gestão de patrimônio e impacto tributário
No segmento de alta renda, a Portofino Multi Family Office alerta para os efeitos da reforma tributária. Lucas Reis, sócio da gestora, explica que a incidência dos novos impostos (IBS e CBS) deve penalizar a detenção de imóveis via holdings patrimoniais e SPEs, tornando os fundos imobiliários veículos fiscalmente mais eficientes. Outra tendência apontada pela casa é o surgimento de FIDCs imobiliários, aproveitando spreads de crédito ainda atrativos.
João Arthur, da Suno Consultoria, descreve o que chama de “paradoxo brasileiro”: com a queda da Selic, o investidor acostumado à alta rentabilidade da renda fixa sem risco é forçado a migrar capital para ativos reais e fundos imobiliários para manter seus ganhos. André Lucarelli, da Brookfield, complementa que, apesar de ser um ano atípico devido às eleições e à Copa do Mundo, 2026 deve ser “curto, mas intenso”, com liquidez retornando à mesa de negociações.
