Fortaleza – CE | quinta-feira 15 de janeiro de 2026 / 04:39

Entidades projetam desaceleração da economia em 2026

CNI e CNA estimam crescimento do PIB de 1,8% no próximo ano, acima da previsão do Banco Central, mas alertam para cenário adverso.

A economia brasileira deve perder fôlego em 2026, segundo projeções divulgadas por entidades representativas da indústria e do agronegócio. Em relatórios com as perspectivas para o próximo ano, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estimam um crescimento de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB), em um ambiente marcado por juros elevados, desequilíbrio fiscal e incertezas políticas típicas de um ano eleitoral.

A projeção das entidades é ligeiramente mais otimista do que a divulgada recentemente pelo Banco Central (BC), que prevê expansão de 1,6% em 2026 — a menor desde a retração de 3,3% registrada em 2020, durante a pandemia de covid-19.

Crédito restrito e política fiscal em foco

De acordo com Mário Sérgio Telles, diretor-adjunto de Desenvolvimento Industrial, Tecnologia e Inovação da CNI, a desaceleração está diretamente relacionada à redução do crédito novo voltado ao consumo, consequência da manutenção da taxa Selic em patamar elevado ao longo do ano.

Segundo ele, esse efeito tende a ser parcialmente compensado por medidas de estímulo fiscal, como a ampliação da isenção do Imposto de Renda e a continuidade da geração de empregos. Ainda assim, o cenário permanece desafiador para os setores mais sensíveis ao custo do crédito.

Indústria cresce menos e preocupa

Para a indústria, a expectativa é de um desempenho mais fraco. A CNI projeta crescimento de apenas 1,1% para o setor em 2026, abaixo da estimativa do próprio Banco Central, que revisou sua projeção de 1,4% para 1,9%.

O principal fator de pressão, segundo a entidade, é o desempenho da indústria de transformação, cuja alta deve ficar limitada a 0,5%. Esse resultado tende a limitar o avanço industrial como um todo e reduzir sua contribuição para o crescimento econômico.

A construção civil também aparece como ponto de atenção. Telles destaca que os entraves incluem juros reais ainda elevados e o aumento das importações. Por outro lado, mudanças nas regras do financiamento imobiliário e anúncios de novos estímulos podem gerar impactos positivos ao longo do ano, amenizando parte das dificuldades do setor.

Agropecuária mais otimista que o BC

Enquanto a indústria adota uma postura mais cautelosa, o agronegócio apresenta projeções relativamente mais positivas. A CNA estima que o PIB agropecuário, após crescer 8,3% em 2025, avance 2,3% em 2026.

O Banco Central, no entanto, projeta crescimento bem mais modesto, de apenas 0,5%. Já a CNI prevê estabilidade, com crescimento zero, refletindo principalmente uma possível retração de 3,7% na produção vegetal, influenciada pela queda esperada no cultivo de milho.

Serviços e consumo das famílias

Para o setor de serviços, a CNI projeta crescimento de 1,9% em 2026, sustentado por tendências estruturais como a transformação digital e a expansão de serviços intensivos em tecnologia. O BC mantém uma visão mais conservadora, com estimativa revisada de 1,6%.

A entidade industrial também prevê alta de 1,9% no consumo das famílias, mesmo diante de um cenário de crédito mais restritivo e inflação acima da meta.

Inflação deve permanecer acima do centro da meta

No campo inflacionário, CNI e CNA demonstram maior pessimismo do que o Banco Central. A indústria projeta inflação de 4,1% em 2026, enquanto a agropecuária estima 4,16%, ambas acima da previsão do BC, de 3,5%.

Essas estimativas também superam o centro da meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, de 3%, e estão alinhadas com o Boletim Focus, que aponta expectativa de 4,16% para o próximo ano.

Comércio e serviços mantêm cautela

O setor de comércio e serviços também adota uma postura prudente. A Fecomércio-RS projeta crescimento de 1,7% do PIB nacional em 2026, com inflação de 3,9%. Para o consultor econômico da entidade, Marcelo Portugal, o ambiente eleitoral pode elevar os riscos fiscais, especialmente em caso de disputas acirradas.

Segundo ele, medidas de caráter populista podem antecipar desequilíbrios que afetariam a economia a partir de 2027. Portugal também cita como fator de incerteza a possível saída do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, prevista para fevereiro.

Mercado de trabalho perde ritmo

A CNI projeta desaceleração gradual no mercado de trabalho. A massa de rendimento real deve crescer 3,4% em 2026, enquanto a taxa de desemprego deve encerrar o ano em 5,6%, acima dos 5,4% observados no trimestre encerrado em outubro de 2025.

Embora a entidade espere o início do ciclo de cortes da Selic no primeiro trimestre, os efeitos da política monetária restritiva ainda devem impactar o emprego ao longo do ano, devido à defasagem com que os juros afetam a economia real.

A expectativa da CNI é que a Selic recue para 12% ao ano até o final de 2026, permanecendo, no entanto, em nível considerado fortemente contracionista. O mercado, segundo o Boletim Focus, projeta taxa ligeiramente superior, de 12,25%.

Contas públicas seguem no radar

As entidades também se mostram céticas quanto ao ajuste fiscal. Tanto a CNI quanto a CNA estimam déficit primário em torno de R$ 75 bilhões, equivalente a 0,6% do PIB, em linha com as expectativas do mercado.

Para Bruno Lucchi, diretor-técnico da CNA, o cenário eleitoral reduz as chances de cortes de gastos. “O risco é de aceleração da inflação, o que prejudica o consumo e dificulta a redução da taxa Selic”, avalia.

Exportações e comércio exterior

No comércio exterior, a expectativa é de crescimento mais lento das exportações da indústria de transformação, pressionadas pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos. No agronegócio, uma safra de grãos mais modesta em relação a 2025 também deve limitar o avanço das vendas externas.

Produtos como pescados, sebo bovino, mel, uvas e álcool etílico seguem sujeitos a tarifas adicionais. Caso não sejam excluídos das listas de restrição, o impacto negativo pode alcançar US$ 2,7 bilhões na pauta agropecuária, segundo a CNA.

A entidade também alerta para sinais da China de redução das importações de grãos destinados à ração animal, especialmente soja, mercado no qual o Brasil é o principal fornecedor. Além disso, o adiamento das leis antidesmatamento na União Europeia gera incertezas adicionais.

No câmbio, a CNA avalia que o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos tende a favorecer a entrada de capital estrangeiro, contribuindo para a valorização do real. Por outro lado, a percepção de fragilidade fiscal em ano eleitoral pode provocar saída de recursos e elevar significativamente a volatilidade cambial.

Fonte: Redação

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