Clima e recursos hídricos lideram preocupações para 2020

A robusta e enérgica Região Metropolitana de Fortaleza ganha um novo ano com velhos e preocupantes desafios no meio ambiente, em evidência por culpa, principalmente, das manchas de óleo que invadiram as praias cearenses e nordestinas no segundo semestre de 2019. Na mudança de calendário, além da atenção voltada à balneabilidade da orla, a revitalização de lagoas e a arborização do meio urbano para o equilíbrio do clima surgem como medidas urgentes. As lições servem também ao Interior do Ceará.

As cortinas do ano são cerradas com o grave surgimento de petróleo cru nas praias – oleando tartarugas, aves e peixes, com ameaça também à saúde de banhistas. Ainda que o último boletim do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do dia 20 de dezembro, apresente quadro estável, sem manchas na orla, o incidente gerou preocupação com a conservação dos recursos hídricos. Lagoas e parques, carentes de cuidados, essenciais para bairros mais afastados da praia, estão no centro do debate.

Doutor em Geociências e professor do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará (UFC), Marcelo Soares afirma que a poluição das águas ainda é um dos principais pontos de desassossego de especialistas e da própria população.

“A gente continua tendo problemas na Região Metropolitana de Fortaleza, no Ceará, de poluição nas águas pelos esgotos, falta de saneamento básico. Cada vez mais outros contaminantes entram nas nossas águas, como remédios, compostos químicos, plásticos cada vez mais presentes”, alerta o estudioso, com pesquisas em Oceanografia. “Está tudo conectado. As lagoas e os rios estão muito degradados por resíduos de construção civil, resíduos plásticos, e acabam indo pro mar”.

Marcelo Soares acredita que os espaços poderiam ser utilizados de melhor forma, “mais adequadas para população, para atividades de esportes, até mesmo para pesca em algumas comunidades”.

Arborização

O professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Jeovah Meireles, corrobora e acrescenta. Além da revitalização de recursos hídricos, com a despoluição de lagoas, defende que a capital cearense precisa conservar suas áreas verdes. “A Lagoa da Parangaba tem trechos enormes sem árvores, só calçada. A mentalidade é de construir um bosque em área úmida e trilhas e acessos orientados por um bosque ao redor da lagoa. O microclima é alterado, com ventos locais, umidade adequada, sombra, e a proteção das margens contra a erosão”, defende.

A preocupação de Jeovah Meireles, com atuação em trabalhos relacionados a mudanças climáticas, se justifica com o levantamento realizado pelo Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas), divulgado em agosto pelo Diário do Nordeste. Segundo o estudo, Fortaleza perdeu 1.156 hectares de cobertura florestal entre 2013 e 2017. A redução foi superior à registrada entre 1992 e 2012, de 611 hectares. Consultado sobre o assunto na reportagem, Meireles disse que o quadro “precariza a qualidade de vida, principalmente das populações mais periféricas”.

Ações

A Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente, entretanto, rebate a perda de cobertura vegetal. Segundo a titular da pasta, Águeda Muniz, entre 2013 e 2019 foram plantadas 180 mil árvores na cidade, ao citar projetos como Árvore na Minha Calçada e Uma Criança Uma Árvore.

“Sempre houve essa preocupação de melhorar a quantidade de árvores plantadas na cidade. Hoje a gente tem números. Porque tudo que é medido é controlado”. Na aba desse acompanhamento, explica a secretária, estão o próprio Poder Público e a iniciativa privada. “Mas é um desafio esverdear a cidade. Nós pegamos a cidade com 4 metros quadrados de área verde por habitante. Hoje a gente passou de 8. A gente tem que chegar a 12 (metros quadrados por habitante), assegura.

Sobre a situação de lagoas da cidade, Águeda Muniz defende o projeto Águas da Cidade como o principal, “porque é de meio ambiente, mas é um projeto também de saúde pública, de desenvolvimento econômico e de urbanização, de melhoria da qualidade de vida da população”. De acordo com a gestora, os 23 parques estão contemplados na carteira de projetos, a serem beneficiados em 2020 e nos próximos anos, com ênfase para Lagoa da Viúva, Passaré, Parque da Liberdade e Rachel de Queiroz. O último, em implantação, já passa por um processo de despoluição, com mecanismo de drenagem natural.

A Secretaria do Meio Ambiente do Ceará também afirma manter ações para a equilíbrio dos recursos hídricos, que serão reforçadas nos próximos anos. Entre elas, segundo o gestor da pasta, Artur Bruno, está “a valorização das nascentes dos rios, criando unidades de conservação, plantando no entorno das nascentes”. O reflorestamento, inclusive, é uma das prioridades do Governo na área ambiental. “A previsão é de, nos próximos quatro anos, plantarmos mais de 120 mil árvores”.

Outro ponto de atenção é a redução da emissão de gases de efeito estufa, com a elaboração de um plano de energias renováveis, ainda sem data definida, assim como a consolidação do Plano Estadual de Resíduos Sólidos, para pôr fim aos lixões, e o combate permanente à caça de animais da fauna silvestre ameaçados de extinção. O secretário também afirma que, em quatro anos, serão criadas mais 10 unidades de conservação, para somar às 25 já existentes. Missões difíceis a curto, médio e longo prazo.

Fonte: verdesmares