Fortaleza – CE | quinta-feira 15 de janeiro de 2026 / 05:09

Brasil deixa de aproveitar 80% dos resíduos da construção, segundo pesquisa

Mesmo com estrutura e tecnologia disponíveis, o país ainda recicla pouco mais de um quinto dos resíduos da construção civil; especialistas defendem incentivos e integração de políticas para impulsionar a economia circular no setor.

O Brasil ainda está longe de aproveitar plenamente o potencial de reciclagem dos resíduos da construção civil. Apesar de dispor de capacidade técnica e estrutura instalada, o país reaproveita menos de 25% do entulho gerado anualmente. Segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), das cerca de 48 milhões de toneladas de resíduos produzidas por ano — o equivalente a até 60% de todo o lixo urbano — apenas 10 milhões de toneladas são recicladas, representando cerca de 21% do total.

De acordo com o pesquisador Laerte Scavavacca Jr., da Embrapa Meio Ambiente, a baixa reciclagem impacta diretamente os custos do setor, que responde por 10% do PIB e 15% dos empregos formais no país. Ele destaca que a má gestão dos resíduos pode elevar os custos das obras entre 10% e 30%. “Cada real investido em habitação retorna R$ 2,46 para a economia e gera 18 empregos diretos. No entanto, quase metade dos resíduos ainda é descartada irregularmente, em locais não licenciados”, alerta.

Embora o Brasil tenha um marco regulatório sólido — com a Resolução Conama nº 307/2002 e suas atualizações, além da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) — a aplicação das normas é desigual. A ausência de fiscalização efetiva e de indicadores nacionais impede o avanço das metas de gestão e reaproveitamento.

Os resíduos da construção são formados principalmente por concreto, argamassa, cerâmica e tijolos — materiais inertes com alto potencial de reciclagem. A principal rota tecnológica é a produção de agregados reciclados (AR), utilizados em pavimentação, bases e sub-bases de rodovias, blocos e pisos. Estima-se que até 85% do material reciclado vá para obras de infraestrutura, 20% para artefatos de cimento e cerca de 10% para aplicações mais sofisticadas, como concretos leves e muros de contenção.

A concentração das usinas de reciclagem também revela desigualdades regionais. O Sudeste abriga 65% das cerca de 300 unidades em operação no país, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, mas a taxa média regional de reciclagem ainda é de apenas 20%. Entre os principais desafios estão os altos custos logísticos, a falta de escala operacional e a resistência do mercado em adotar agregados reciclados.

Novas soluções vêm sendo estudadas para superar essas barreiras. Pesquisas apontam o uso de resíduos em geossintéticos, concretos estruturais de baixo teor e asfalto-borracha, conforme normas como a NBR 15116. As usinas móveis, instaladas próximas aos canteiros de obra, também ganham espaço por reduzir custos de transporte e emissões de CO₂.

Para que o país avance rumo à economia circular, Scavavacca defende cinco frentes prioritárias: fortalecer a aplicação das resoluções do Conama, criar políticas de compras públicas sustentáveis, incentivar plantas móveis regionais, padronizar certificações e ampliar a pesquisa em novos materiais.

Segundo o pesquisador, “a reciclagem de resíduos da construção civil no Brasil tem potencial para reduzir drasticamente o uso de recursos naturais e os impactos ambientais. O desafio está em transformar esse potencial em prática concreta, com políticas públicas consistentes e incentivos que tornem o reaproveitamento uma realidade estrutural do setor.”

Fonte: Redação

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