Os principais portos brasileiros podem atingir o limite de sua capacidade de movimentação de contêineres até 2030, caso os projetos de expansão e construção de novos terminais não sejam implementados a tempo. O alerta consta de um estudo da Macroinfra, consultoria especializada em infraestrutura e logística de transporte, elaborado com base em dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) referentes ao período entre 2015 e 2025.
O levantamento identificou um quadro de saturação operacional em quatro complexos portuários estratégicos: Santos (SP), Paranaguá (PR), Itajaí/Navegantes (SC) e Itapoá (SC). Segundo a pesquisa, esses terminais já operam no limite ou acima de sua capacidade prática, o que gera custos extras, atrasos, perda de confiabilidade logística e risco de paralisações.
Santos opera sob pressão extrema
No Porto de Santos, o maior complexo portuário da América Latina, a taxa de ocupação conjunta dos principais terminais saltou de 55,9% em 2015 para 76,8% em 2024, alcançando 79,7% no ano passado. Embora a produtividade média tenha avançado nesse intervalo — de 72 para 86 TEUs por hora —, os ganhos de eficiência são insuficientes para acomodar o crescimento da demanda.
Em Paranaguá, a taxa de ocupação do terminal TCP atingiu 81,8% em 2024 e 86,0% em 2025, entrando em zona de saturação. Apesar de a produtividade ter crescido de forma consistente entre 2015 e 2023, passando de 83 para 107 TEUs/hora, houve queda para 88 TEUs/hora no último ano.
Santa Catarina também no limite
O Porto Itapoá, em São Francisco do Sul (SC), reconhecido como um dos mais eficientes do país, viu sua taxa de uso subir de 50,2% em 2015 para 84,7% em 2024, chegando a 88,7% em 2025. A produtividade, contudo, cresceu de forma expressiva no período, passando de 64 para 93 TEUs/hora.
Redistribuição para portos secundários
Com a sobrecarga dos principais terminais, a logística marítima brasileira tem sido forçada a redistribuir fluxos para portos antes ociosos. O destaque é o Rio de Janeiro, cuja participação no total nacional de contêineres quase dobrou nos últimos dez anos, saltando de 3,7% para 6,2% entre 2015 e 2025. “Sua movimentação total cresceu 139% no período, saindo de 292 mil TEUs para 917 mil TEUs”, destacou Olivier Girard, sócio-diretor da Macroinfra.
Portos do Nordeste, como os de Salvador (BA), Pecém (CE) e Suape (PE), também ampliaram ou mantiveram suas participações, absorvendo cargas que buscavam alternativas aos corredores congestionados do Sul e Sudeste.
Demanda cresce sem contrapartida estrutural
O estudo aponta que as exportações e importações marítimas brasileiras utilizando contêineres cresceram 60% entre 2015 e 2025, enquanto a navegação por cabotagem avançou 111% no mesmo período. A demanda projetada para 2030 é de 20,4 milhões de TEUs, volume que consumiria quase toda a capacidade total prevista de 23 milhões, indicando risco de esgotamento completo até 2032.
As obras de ampliação em andamento — como o terminal STS10 em Santos e o novo terminal da Maersk em Suape — são consideradas insuficientes para reverter o cenário. Segundo a Macroinfra, o planejamento imediato de uma nova leva de projetos é indispensável para sustentar o crescimento econômico do país.
