Quanto custa para uma obra parar cinco dias por causa da chuva? A conta feita pela Árbore Engenharia dá uma dimensão concreta do que o fenômeno El Niño representa para os canteiros brasileiros. Considerando que um canteiro executa, em média, 5% da obra por mês, cinco dias improdutivos podem eliminar cerca de 1,5% da produção mensal — um impacto que varia por projeto, mas que se repete dezenas de vezes ao longo de uma obra.
A empresa, que mantém 34 obras ativas no Sudeste, Sul e Nordeste do país, reforçou seus protocolos climáticos após a confirmação do El Niño em junho de 2026. O governo brasileiro apontou probabilidade superior a 90% de permanência do fenômeno até o início de 2027. A NOAA, agência climática dos Estados Unidos, também indicou, em setembro, mais de 90% de chance de um episódio muito forte no outono e inverno do Hemisfério Norte.
El Niño obras: as etapas mais vulneráveis
Nem todas as fases de uma obra sofrem da mesma forma com as intempéries. Trabalhos em áreas expostas — como preparação e nivelamento do terreno, escavações e concretagem de bases — estão entre os mais vulneráveis a chuvas intensas e rajadas de vento. Segundo o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio de Janeiro, ventos acima de 100 km/h e eventos climáticos fora de época afetam diretamente a execução das obras.
A Árbore reforçou o acompanhamento de previsões meteorológicas e endureceu seus protocolos para itens como materiais soltos, telas, andaimes, trabalho em altura e guindastes. A lógica é simples: antecipar o risco antes que ele vire paralisação.
Fábrica como resposta ao mau tempo
Uma das respostas mais eficazes ao problema climático nos canteiros é reduzir a exposição do trabalho ao tempo descoberto. A construtora Tenda fez essa aposta de forma sistemática: cerca de 60% de cada residência de sua marca Alea é produzida dentro de fábricas. O resultado é que o cronograma se torna mais previsível e menos dependente das condições climáticas externas. Juntas, Tenda e Alea somam mais de 80 obras em andamento.
Para Manuel Carlos Reis Martins, da Fundação Vanzolini, o raciocínio precisa ser ainda mais abrangente. O especialista defende que o risco climático entre na equação econômica desde a escolha do terreno — e se estenda por toda a vida útil do empreendimento. “Edifícios podem permanecer em uso por 50 a 100 anos, enquanto muitos parâmetros ainda se baseam no clima passado”, alerta.
Seguro e infraestrutura: o custo que o setor ainda não absorveu
Além da produção direta, as paralisações climáticas também elevam os custos de seguros. Uma apólice para danos à construção e responsabilidade por prejuízos a terceiros custa, em média, de 0,1% a 0,3% do valor da obra — o que, em uma reforma de R$ 400 mil, representa cerca de R$ 800. Em projetos de infraestrutura, o impacto é ainda mais severo: estudo do Instituto Internacional para Sustentabilidade estimou perdas anuais de até R$ 18 bilhões em cerca de 300 obras no país.
O setor avançou na redução de impactos ambientais em suas atividades, mas a resiliência climática — entendida como a capacidade de manter desempenho diante de eventos extremos — ainda está em fase inicial de maturação no mercado brasileiro.


