Fortaleza – CE | quinta-feira 10 de setembro de 2026 / 19:46

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Tratores autônomos e pulverização por IA já são realidade, mas falta de conectividade freia expansão

Tratores autônomos, pulverização seletiva e assistentes digitais já operam no campo brasileiro, porém a falta de conectividade e mão de obra qualificada limita a adoção em larga escala.

O agronegócio brasileiro vive uma transformação silenciosa. Equipamentos que operam de forma autônoma, sistemas que identificam pragas em tempo real e plataformas capazes de antecipar problemas antes que eles ocorram já fazem parte da realidade de uma parcela dos produtores rurais. Contudo, a distribuição dessas tecnologias permanece irregular, evidenciando lacunas estruturais que impedem uma adoção verdadeiramente democrática da inteligência artificial no campo.

Na Agrishow 2026, a maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, realizada em Ribeirão Preto (SP), a IA e seus efeitos práticos na rotina das fazendas ocuparam o centro dos debates. O evento consolidou a percepção de que a modelagem computacional aplicada ao agro deixou o estágio de promessas e ingressou em um ciclo de implementação concreta.

Eficiência operacional como principal ganho

Para Cesar Vieira Jr., diretor comercial da Calice no Brasil — agtech multinacional focada em soluções tecnológicas para o setor —, o grande diferencial da IA reside na capacidade de otimizar recursos em um cenário de margens cada vez mais estreitas. “A tecnologia possibilita que o produtor diminua inspeções físicas no campo por meio de sensores e visão computacional, obtenha recomendações agronômicas em tempo real e acesse análises de mercado simplificadas por canais que já domina, como o WhatsApp”, explicou durante painel no evento.

Vieira Jr. destaca que a IA não visa substituir o conhecimento acumulado do agricultor, mas sim racionalizar processos e acelerar decisões. Em um ambiente de juros elevados e crédito escasso, esse tipo de ganho pode ser decisivo para manter a competitividade.

Máquinas que aprendem e orientam

Fabricantes de equipamentos pesados também ampliaram o uso de IA embarcada em suas linhas. A JCB, com mais de 500 mil máquinas conectadas globalmente — cerca de 17 mil delas no Brasil —, processa dados operacionais para gerar recomendações práticas aos operadores. “Trabalhamos essas informações para fornecer orientações como a aceleração ideal ou a posição correta dos componentes ao final do turno, reduzindo desgastes”, afirmou Adriano Merigli, presidente da JCB América Latina.

A companhia já embarca sistemas de aprendizado contínuo (machine learning) em seus equipamentos desde a linha de montagem, permitindo que a tecnologia antecipe ajustes e contribua para operações mais previsíveis ao longo de toda a vida útil da máquina.

Pulverização inteligente e economia de insumos

Na John Deere, o avanço se materializou especialmente na pulverização seletiva. Câmeras instaladas na barra do pulverizador escaneiam o terreno enquanto o equipamento avança, e a IA identifica em milissegundos o que é planta daninha e o que é cultura. O bico pulverizador é acionado somente sobre as ervas invasoras.

“Se apenas 30% da lavoura estiver infestada, a aplicação ocorre exclusivamente nessa fração. O produtor percebe a economia diretamente, além de reduzir o estresse sobre a cultura e evitar a dispersão desnecessária de defensivos no meio ambiente”, detalhou Estela Dias, gerente de Marketing Tático da John Deere para a América Latina.

A Geo Agri, por sua vez, apresentou na feira um pulverizador totalmente autônomo projetado para culturas perenes, que combina localização de alta precisão e visão computacional. Segundo a empresa, o equipamento é capaz de diminuir em até 40% o consumo de defensivos ao eliminar sobreposições e desperdícios.

Automação de manobras e conectividade entre máquinas

A Case IH trouxe à feira uma arquitetura eletrônica que automatiza a manobra de cabeceira — uma das etapas mais repetitivas da operação agrícola. O sistema controla velocidade, acionamento de implementos e alinhamento do equipamento para a passada seguinte, reduzindo a fadiga do operador e melhorando o aproveitamento da área cultivada.

“Esses recursos estão presentes desde os menores até os maiores equipamentos do nosso portfólio. Não falamos de conceitos, mas de máquinas reais, prontas para o trabalho assim que saem da fábrica”, ressaltou Paulo Arabian, vice-presidente de Vendas da Case IH para a América Latina.

Robôs autônomos e plataformas preditivas

A Solinftec apresentou dois novos robôs autônomos e a plataforma Alice Multiagente, capaz de programar tarefas, analisar dados coletados em campo e orientar o produtor em cada fase produtiva — do pré-plantio ao pós-colheita. A empresa também estruturou o histórico de até duas décadas de safras de seus clientes para transformar esse acervo em recomendações práticas.

“A escassez de mão de obra qualificada não se limita à operação das máquinas, mas se estende à gestão de dados. A IA assume um papel estratégico como sistema de apoio contínuo à tomada de decisão”, avaliou Emerson Crepaldi, diretor de Operações da Solinftec.

Conectividade: o gargalo que persiste

Apesar da sofisticação crescente dos equipamentos, a infraestrutura de comunicação ainda é um obstáculo relevante. Levantamento da ConectarAGRO aponta que apenas 33,9% da área agrícola brasileira possui cobertura 4G ou 5G, com concentração nas regiões Sul e Sudeste. Essa limitação restringe o aproveitamento pleno das tecnologias digitais disponíveis.

Para enfrentar esse desafio, a John Deere lançou em 2025 o JDLink Boost, solução baseada em internet via satélite desenvolvida em parceria com a Starlink. O sistema mantém as máquinas conectadas mesmo em regiões sem cobertura de redes móveis.

Formação profissional como pilar

A qualificação dos operadores é outro fator determinante para a expansão da IA no campo. A Case IH mantém o programa Formação de Alta Performance, que oferece aproximadamente 200 cursos gratuitos. Somente em 2025, foram emitidos quase 15 mil certificados. “Embora a tecnologia seja essencial, o agro continua sendo feito por pessoas. Investir em treinamento é fundamental para extrair o máximo das máquinas e manter esses profissionais preparados para o mercado”, finalizou Arabian.

Fonte: Redação
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